segunda-feira, 4 de julho de 2011

Não resistir e resolvi postar aqui excelente texto de Fábio Gerônimo, publicado no puxacachorra, a respeito da maldição que se abateu sobre o adjetivo "universitário".
Imperdível:

Selos do Apocalipse #3 - Sertanejo universitário


por Fábio Gerônimo | 04.05.10

Histórico

O que é um universitário? Você diria: um cara que faz universidade, certo? Bem, nesse contexto, eu sou um, e faz tempo. Mas o universitário representa mais que isso: ele é o famoso formador de opinião (risos histéricos). É aquele a quem se atribui um ar de cultura, de conhecedor do que é esteticamente valorizado.

Assim, tudo o que o estudante universitário gostar é... digamos... bom? Bem, quando no auge da ditadura o modelo de universitário era o cara que ouvia Chico Buarque, tudo bem. Afinal de contas, o universitário era aquele hippie cabeludo e maconheiro que lutava contra a opressão do capitalismo – acredite, ainda existem esses seres.

Daí surgiram os festivais da Record, e os músicos que agradavam o ouvido atento e revolucionário dos estudantes virou sucesso. A coisa foi assimilada de tal forma que, aliás, meu pai, mesmo sendo um defensor ferrenho da ditadura militar, ama Chico Buarque, Gil e Mutantes, o que parece até um contra-senso. Tipo, você imagina o Caetano Veloso amigo, sei lá, de um coronel? Ops! pula essa...

De qualquer forma, a chamada música universitária sempre foi A música culta, para um homem culto. Bem... não é o que eu penso quando ouço isso:

http://www.youtube.com/watch?v=6wTeA0sGMH4&feature=player_embedded

Isso atende pela alcunha de sertanejo universitário.

Na verdade já faz algum tempo que o adjetivo universitário vem acompanhando uma série de estilos musicais que, supõe-se, derivam do meio em questão. E não se importe: nenhum deles fala de Aristóteles, Kant, Marx, Newton ou Chomsky: todos falam de amor, dor de cotovelo e de como é bom encher o cu de cerveja e ir pra esbórnia.

Começou, pelo menos pra mim, com a febre do forró universitário, lá com o “glorioso” Falamansa. E, considerando que já se vão aí dez anos que freqüento esse meio, não tem como negar que a coisa é obra pensada do canhoto.

Lembro-me de minha surpresa quando, de repente, surgiu um jeito de dançar forró que, mesmo como filho de paraibanos, não consigo compreender. A galera de casa adora arrastar uma “chinela”, mas aquilo eram uns passos estranhos, todos marcados, uns rodopios que mais parecem ter saído da dança dos famosos do Faustão! Sei lá, forró pra mim até então era o Luís Gonzaga e o Dominguinhos. De repente surge um bando de moleques brancos, paulistas, ricos e ‘descolados’ que se apossam de termos como “pé-de-serra” pra dizer que têm raízes culturais. E sim, é claro, sempre todo grupo nesses moldes tem, além dos moleques que aparecem nas capas dos CDs, um sanfoneiro bem mais velho e nordestino, pois a sanfona é o único instrumento que dá trabalho no forró, já que qualquer babuíno toca um triângulo e uma zabumba.

E, vendo que a sua obra estava já se proliferando, o capiroto quis mais.


A proliferaçao da praga

Eis que, num belo domingo de sol, mamãe está ouvindo a rádio e toca uma melodia cunhada nas profundezas do tártaro, enquanto belzebu sodomizava Hitler.


É, “Juro que te esqueço” parceria hedionda de Eduardo Costa e o também “fantástico” Zezé di Camargo:

http://www.youtube.com/watch?v=aisqL8KQTpA&feature=player_embedded


E minha mamãe, que é do povão e gosta desses artistas, comenta: “Nossa, nem distinguir quem é quem cantando a música”.

O que para mim é sinal do fim dos tempos. Afinal, não basta ser um clone de um artista, você tem que ser um clone mal feito do que tem de pior no Zezé di Camargo! Meu amigo, isso é um feito digno de alguém que almeja um lugar cativo ao lado do satanás.

Além disso, sendo um digno seguidor do cão, a criatura alia suas forças com o tiozão Zezé di Camargo. Poxa, pro Zezé di Camargo ser encaixado no sertanejo universitário só com sistema de cotas pra idosos!

É um plano claro e simples: enquanto as crianças são expostas à Xuxa, os adolescentes pobres ao que toca no Celular com Auto-falante, os universitários, os donos da cultura e formadores de opinião, ouvem Eduardo Costa. Mas, peraê... minha mãe não é universitária!

Sim. Nem a maioria do público desses malditos. Na verdade, como eu já falei lá em cima, a coisa é associar o termo universitário a qualquer gênero de música mequetrefe pra parecer que é diferente do que o povão gosta! Assim, você legitima a atrocidade, pois os universitários gostam ué!

Daí, quando a coisa chega na universidade, surgem três grupos: aqueles que aderem a modinha que vier, os que não aderem mas vão em todas as baladas e, por acaso, sabem de cor todas as letras dessas “músicas”, e o último grupo: os que sempre gostaram dessas orçarias, mas tinham vergonha de assumir porque, espera-se, universitário gosta de coisa boa!

Já ouviu João Bosco e Vinícius? Bem, não estou falando do compositor e do poetinha, mas sim dos autores da música mais tocada nas baladas universitárias do ano passado:

http://www.youtube.com/watch?v=e0_YNCAj98g&feature=player_embedded


Você esteve em algum lugar ano passado onde essa beleza de composição não tocou? Sei lá, na lua? Porque se você não é um morador do nosso satélite natural você com certeza foi exposto à poesia desses dois que, só pela idéia de se apropriar dos nomes dos grandes João Bosco e Vinícius pra parecerem mais, sei lá, “universitários”, deviam arder no mármore do inferno.

Sim, eu sei que o maior antro de “chicleteiros” é a universidade. Eu sei que, no geral, essa raça da qual eu faço parte ou tem mau gosto, ou posa de figura cult e descolada, que só gosta de rock indie e all-star. Concordo, mas a proliferação do tal *ponha o nome do gênero musical aqui* universitário torna essa coisa pior que praga do Egito.

E o mais aterrador é que o que sustenta essa galera é o mesmo preconceito arraigado que fez do brega o oposto da música de protesto. Da mesma forma que tem um monte de gente pondo o Odair José no altar, agora tem a molecada que legitima não apenas o brega, mas o sertanejo e o forró, chamando de universitário.

Ai meu deus! Tem solução pra isso?

Não, infelizmente. Até dá pra tentar buscar um gênero pra se opor, sei lá, o black metal universitário! Mas, sempre que o povão e os baladeiros quiserem, vai surgir uma praga dessas.

Aguarde. Vão surgir mais gêneros. Já anda tocando bastante pagode nas baladas universitárias. Logo, logo, teremos ainda o funk universitário, o calipso universitário, o tecnobrega universitário e o emo universitário... Porque? Oras, porque o mundo é injusto, feio e o vai acabar em 2012!

Ainda bem!

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